O Livro do Cavaleiro

Palavras ao educador
Por Thais Linhares

Esta é uma obra literária criada em privilégio do leitor. O potencial lúdico foi colocado antes de seus valores didáticos. Aqui, quem manda é a criança, seus anseios, suas necessidades.
Mas não se engane. Não será por acaso se o tratamento gráfico dado às imagens e as características do discurso do narrador lhe recordarem algumas das produções favoritas dos jovens leitores, a citar, “Crônicas de Nárnia” – C.S.Lewis, “Senhor dos Anéis”– J.R.R.Tolkien, as aventuras da turma do Sítio do Pica-pau Amarelo – Monteiro Lobato, os contos dos Cavaleiros da Távola Redonda.
O que consagrou essas obras, foi exatamente seu apelo às necessidades psicológicas das crianças de todas as épocas.
Tanto o texto quanto as ilustrações de “O Livro do Cavaleiro” foram elaboradas por amor. Amor a um menino que chegava ao seu sétimo aniversário, e que se via diante dos desafios desta que hoje os psicólogos gostam de chamar de “a idade da razão”. E é por volta desta idade que a criança tem sua primeira “cristalização” do que é o certo, o errado, o bom, o aceitável, o mal… e sobretudo: o medo.
Surgia ao meu lado, um ser pleno de entendimentos. Capaz de absorver informações de uma forma racional. Olhos e ouvidos atentos às notícias (infelizmente, muitas vezes desagradáveis) dos telejornais e folhas impressas. Digerindo imagens e frases à sua volta, e tecendo conclusões complexas, ainda que sobre uma ótica restrita ao universo de uma criança que saía de sua primeira infância.
É a hora de entender.
Mas entender significa também se fascinar e temer. As crianças, no início de forma intuitiva, suportam o peso da consciência de sua própria vulnerabilidade. O medo da perda dos pais, da fome, do frio, dos monstros reais ou imaginários.
Chega uma hora em que ela precisa trabalhar esses medos. A noção de violência, de poder, de vida e morte. E assim seguir em frente para novos estágios em seu desenvolvimento.
Quando seu aluno estiver brincando de capa e espada, derrubando “orcs”, ou salvando as donzelas do terrível dragão lança-chamas, respeite. Ele está trabalhando dentro de si as verdades dolorosas do mundo, cada vez mais presentes em seu entendimento.
Não confunda espada de brinquedo com arma de verdade. Não veja violência em brincadeiras “sobre a violência”. Uma partida de futebol é, na prática, muito mais “violenta” do que uma encenação de uma peleja entre Sir Lancelote e Sir Agravaine.
Ao interromper, e aí sim vemos a verdadeira violência, a brincadeira de espadas da gurizada, você estará interrompendo parte importante de seu desenvolvimento psicológico. Você impediu que emoções relacionadas ao medo fossem resolvidas internamente. E pior, criou um tabu, que fermentará como um caroço de manga na cabeça do jovem. Um tabu de que a violência e o medo são assuntos dos quais não devemos falar, expressar, debater. Pois era exatamente isso que os jovens “espadachins” estavam fazendo: expressando o medo e sua visão de poder, agressão, morte. As crianças não dominam o discurso verbal como nós adultos. Elas “falam” através de suas brincadeiras. Os adultos tem à sua disposição toda uma gama de produtos culturais que o ajudarão a dar continuidade a esse mesmo exercício de entendimento. O livro “Guerra e Paz”, de Leon Tolstói, é um bom exemplo.
Um educador amoroso e inteligente, saberá observar nas brincadeiras, esse trabalho interno do medo e do poder. Saberá também diferenciar das brincadeiras “sobre a violência” (como as de capa-espada, vídeo-games, RPGs medievais) das brincadeiras violentas (onde ocorre a humilhação ou agressão gerada por raiva e verdadeiro medo). Qualquer brincadeira pode ser violenta. Até mesmo uma brincadeira puramente verbal. Todos sabemos que existem formas diversas de agredir. É justamente por isso, que não devermos inibir as representações que ajudam à criança a vivenciar de forma inofensiva sua agressividade. Pois se fecharmos essa válvula, a panela pode acabar explodindo de forma inesperada.

Falar sobre a formação de um cavaleiro, em sua forma medieval, caiu como uma luva para que eu pudesse trabalhar essas questões. Diferente do que alguns pesquisadores propagam, a sociedade medieval tinha, sim, uma visão própria da infância. Ao infante era conferido um papel. Expectativas mudavam conforme o amadurecimento. E sete anos era a idade de se tornar um membro participante da dinâmica familiar.
Era dentro dos limites de sua casa, ou da casa de um parente, que era dado o primeiro passo rumo a sua autonomia.
O menino tornava-se pajem, a menina, de forma similar, também ajudava. A bola da vez estava com a mãe: ela indicava as tarefas a serem cumpridas. Ajudar na limpeza, servindo a mesa de jantar, carregando roupa suja… A criança já sabia seu lugar na casa, ao mesmo tempo em que teria suas lições de religião e leitura.
Era o despertar para a formação de uma auto-imagem sadia, rumo a autonomia, aprendendo a reagir positivamente diante dos fracassos e dificuldades da vida.

O segundo salto ocorria mais tarde, aos 14 anos. Quando o horizonte era ampliado para além dos laço familiares. Agora cabia ao pai orientar a turma jovem. O adolescente já colocava seu pé no mundo. Ainda a serviço de alguém, surgia o escudeiro. Como os aprendizes de ofícios atuais, nossos alunos de escolas técnicas, já recebiam treinamento profissional.
Completos 21 anos, o jovem já conquistara autonomia total. Era reconhecido socialmente, e sentia-se auto-confiante para começar a juntar seu patrimônio, e formar sua família. As meninas, salvo algumas excessões, já se encontrariam casadas neste momento.
E claro que não sugiro que nenhuma mocinha se case tão jovem. Isso deve ter acabado com minha bisavó Guilhermina, casada aos quinze anos. Toda sisuda na foto, vestido abotoado até o queixo!

Trabalhei usando o treinamento do cavaleiro como uma metáfora para o amadurecimento do “poder pessoal”.
Sem ética, caridade e disciplina, não se formaria um verdadeiro cavaleiro, e nem tampouco se forma hoje um adulto feliz e plenamente capaz à vida em sociedade.

E, para falar das ilustrações, lá vão mais três parágrafos.
Existem diversos tipo de linguagem textual. Quem quer se fazer entendido deve ter em mente o discurso adequado à cada faixa etária, e até mesmo a temática e o tema tratados.
Funciona da mesma forma com a ilustração. Já vi livro, de texto fluido e leve, ser “emperrado” por imagens pesadonas, elaboradas sob a pretensão de modernidade.
Mas, em arte, verdadeira arte, não tem “tendência”. Isso é coisa de indústria de moda. E artista de verdade não segue moda. Mesmo no caso de uma arte que se inspira em outra linguagem (como é a ilustração, inspirada no texto), o que pressiona o estilo e “discurso” visual, é o que chamo de “alma” da obra.

O Livro do Cavaleiro é um livro de sonhos: de ser forte, de ser independente, de SER. Então, é isso que foi representado. Os leitores se fazem representados de posse de suas espadas e escudos. As rédeas dos corcéis são como as rédeas do destino. E isso merece respeito. O tratamento visual trata com seriedade o sentimento das crianças. Não tem caricatura nem distorções. Nem manchas difusas (melhor aplicáveis para outros textos, que comuniquem ambigüidade), ou as linhas torturadas dos “modernos”. Pelo contrário. As linhas são decididas. As personagens são elegantes e dignas. O tratamento é respeitoso, independente da etnia, da cor da pele, da religião, do gênero. Aqui nestas páginas (d’O Livro do Cavaleiro) é o lugar certo para se exercitar a dignidade e auto-estima também através das imagens.

O tema da cavalaria medieval, em especial quando chegamos ao capítulo sobre as cruzadas, é perfeito para se levantar um debate sobre a tolerância religiosa e cultural.
O trecho sobre a participação das mulheres revela que não é de hoje que elas fazem e acontecem. Ao contrário da visão propagada por livros de gerações passadas, a participação feminina não foi tão pequena e nunca sem importância. E essas são informações que precisam ser resgatadas, e colocadas à favor da auto-estima das meninas.
Outros tabus também tem seus calcanhares de barro abalados: a visão errônea de que a Idade Média foi um período de trevas e barbárie, de que o Brasil não tem nada a aprender com o estudo do medievalismo, de que os povos não cristianizados eram “perversos infiéis”, o “dualismo” (forças do bem x forças do mal) exaustivamente explorado pela produção cultural para crianças e adultos, que foi , e ainda é, entrave para uma sociedade que sonha com uma cultura de paz.
Por exemplo, o leitor é convidado logo na primeira página a se engajar nas “forças do bem”, apenas para perceber, ao final do livro, que em nenhum momento apresentou-se as tais “forças do mal”. Isto porque o mal não está nos “outros”, e sim em nosso próprio comportamento e preconceito.
O Brasil formou sua identidade a partir do encontro de diferentes culturas. O choque cultural promovido pela chegada das primeiras naus portuguesas foi o estopim que acendeu o fogo desta caldeira de influências. A Cavalaria Medieval, seus ideais e artes, continuam bem vivos em nosso país. Que o diga mestre Ariano Suassuna (uma fonte assumida de inspiração para meu trabalho como autora) e seu movimento Armorial. Um capítulo, dedicado a essas raízes cavaleirescas do Brasil, apresenta a Cavalhada ao jovem leitor que nem sempre pode se privilegiar da proximidade com os festejos tradicionais de nosso povo.

Quanto ao conteúdo informativo, acabei denunciando minha paixão por história, em especial a do período emdieval. Apesar de ter fundamentado cada capítulo em anos de pesquisa sobre o tema, reluto muito em encarar esse livro como um paradidático.
O próprio termo “didático” não é visto com bons olhos pelos incentivadores de leitura. Ficou desgastado, talvez por culpa de quem transmite a informação de forma fria, em discursos que se distanciam do entendimento das crianças.
Já nascemos curiosos. Todo mundo gosta de aprender. Informação bem passada e de qualidade é viciante! Então, basta respeitar esse potencial “enfeitiçador” da informação, para deixar fluir a leitura e fazer deste ou outro livro um momento de puro prazer para a criança. Porque ler, se informando e se encantando, é o que melhor pode haver para a auto-estima de qualquer um.
O Livro do Cavaleiro é, também, um livro sobre auto-estima.