| |
|
Decidi
criar a HQ "Negrinho do Pastoreio" partindo de um ponto de vista
totalmente oposto a todos os demais trabalhos que fiz ao longo de minha
carreira de quadrinista.
Sempre escolho como ponto de partida um assunto que me fascine: um evento
histórico, um conto, um romance. Com o "Negrinho", foi
o contrário. Decidi adaptar a lenda justamente por não gostar
dela!
Claro que algo nela me seduziu. Mas discordei veementemente da visão
simplista do personagem, que reforça o estereótipo histórico
do escravo submisso, coitadinho, sem vontade própria, a quem só
cabe o papel de trabalhar e apanhar.
Como brasileiro até a última gota, abracei a arte, história
e cultura afro-brasileiras em minhas últimas obras: “O Quilombo
Orum Aiê”, “Chico Rei”, “Mwindo” e
“A Cachoeira de Paulo Afonso”. Não só nos temas,
mas também no traço, inspiradíssimo na arte africana.
Em todos esses meus trabalhos anteriores, o negro tem voz, tem atitude,
e cada personagem é um indivíduo único, com vontades,
aspirações, defeitos e qualidades únicas, particulares.
É dessa forma que vejo o meu "Negrinho". Ele é
tudo, menos um coitado, Ele tem personalidade e iniciativa. Tem vaidade,
mas abre mão dela em troca do que acha justo, num gesto heroico.
Tem paixões, medos, fraquezas. Ele sou eu, ele é você.
Nós somos "Negrinhos".
Mesmo com essa mudança na alma do personagem, a HQ é totalmente
fiel à lenda. Vai até um pouco além, explorando mais
a questão do sincretismo religioso, tema deixado de lado pela lenda
original.
Foi uma delícia trabalhar na criação da HQ "Negrinho
do Pastoreio", e desejo de coração que o leitor compartilhe
essa delícia comigo, durante a leitura dessas páginas feitas
com paixão.
André Diniz
|